Muito além da câmara: o percurso de Raquel Torres entre conteúdos e marcas – Diário do Distrito

Muito além da câmara: o percurso de Raquel Torres entre conteúdos e marcas – Diário do Distrito

A criação de conteúdos digitais tornou-se o centro do percurso profissional de Raquel Torres, mas tudo começou muito antes de pensar em transformar essa paixão numa carreira. Desde criança que gravava e editava vídeos, um interesse que a levou a estudar Audiovisual e Multimédia na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) e, mais tarde, a aprofundar os conhecimentos na área da pós-produção.
Entre a experiência profissional, os conteúdos que partilha nas redes sociais e os projetos que desenvolve para empresas, encontrou uma forma de aliar criatividade e estratégia. A criação da WOWMY Agency representa um novo passo neste caminho, com o objetivo de ajudar marcas a comunicar de forma autêntica e ajustada à sua identidade.
“Desde pequena que fazia vídeos, editava para o YouTube”, recorda Raquel Torres. A edição e a possibilidade de transformar ideias em imagens despertaram-lhe um interesse que acabou por orientar as suas escolhas académicas. “A minha grande paixão era o vídeo”, afirma.
Quando chegou o momento de escolher um curso superior, chegou a ponderar Belas-Artes e Design, mas acabou por ingressar na ESCS, onde nos conhecemos, sendo que frequentou a licenciatura de Audiovisual e Multimédia. “Entrei na ESCS e ainda bem, porque é um mundo mais prático e deu-me muitas bases para aquilo que faço hoje”, considera.
Mais tarde, frequentou um curso de pós-produção para Televisão e Cinema na World Academy. Teve também experiências de estágio ligadas ao 24Kitchen e ao Got Talent, que lhe permitiram adquirir bases de produção e contactar com a organização de filmagens e sessões fotográficas. Essa formação técnica viria a revelar-se importante num percurso em que a imagem, a edição e a capacidade de contar histórias através do vídeo continuam a ocupar um lugar central.
O percurso profissional começou com uma experiência de estágio, seguida de uma oportunidade numa empresa através de uma pessoa que conheceu nesse contexto. Durante alguns anos, trabalhou em áreas ligadas ao marketing e à fotografia, assumindo diferentes tarefas de comunicação.
A experiência permitiu-lhe conhecer outras dimensões do trabalho, mas chegou uma altura em que quis construir um percurso próprio. “Depois senti que estava na hora de voar e comecei então a construir o meu percurso sozinha”, conta. A criação de conteúdos já fazia parte da sua vida através do YouTube e de trabalhos para marcas. A partir daí, começou a desenvolver o seu próprio negócio, conciliando a gestão de redes sociais com a produção de fotografias e vídeos.
A decisão trouxe liberdade, mas também inseguranças. Uma das maiores dificuldades iniciais foi aprender a gerir aspetos práticos do negócio, como a elaboração de orçamentos, sem ter sempre a certeza de estar a tomar as decisões certas. “Eu tinha um medo porque eu não sabia se estava a fazer as coisas certas ou não”, admite.
Quando compara a pessoa que saiu da faculdade com a profissional que é hoje, identifica uma transformação essencial: a confiança. “Depois fui aprendendo e evoluí imenso”, resume. A experiência ajudou-a a descobrir capacidades que não sabia ter e a ganhar autonomia para tomar decisões, lidar com clientes e construir uma atividade profissional à sua medida.
Nas redes sociais, Raquel Torres tornou-se conhecida pelos conteúdos dedicados à descoberta de produtos e novidades, sobretudo de supermercados. A Mercadona ocupa um lugar de destaque nesta vertente, com vídeos em que apresenta artigos e experimenta produtos perante a câmara. A iniciativa nasceu do seu interesse genuíno pelas novidades. Segundo explica, não recebe qualquer tipo de pagamento da Mercadona por estes vídeos, embora gostasse de vir a trabalhar com a marca.
“Obviamente, adorava que me pagasse, mas eu faço mesmo genuinamente”, afirma. A autenticidade é importante para a criadora, que procura mostrar os produtos tal como os experimenta, partilhando as suas descobertas com quem a acompanha.
Mesmo sem uma colaboração remunerada com a Mercadona, pretende continuar a produzir estes conteúdos porque gosta de o fazer. Entretanto, o alcance dos vídeos começou a despertar o interesse de outras empresas. “Através desses vídeos, outras marcas também vêm ter comigo porque esses vídeos alcançam muitas pessoas”, explica.
Entre as marcas com que trabalha encontra-se o Pingo Doce, para o qual produz alguns vídeos por mês. O crescimento da página trouxe oportunidades, mas também novas exigências. Como o público procura sobretudo novidades e produtos interessantes, Raquel sente a responsabilidade de continuar a encontrar conteúdos capazes de despertar curiosidade.
“Tenho que ir procurar sempre produtos que eu sinta que vão viralizar ou que recebem muita atenção”, reconhece. Os números podem ajudar a chegar a mais pessoas e a estabelecer novas parcerias, mas também aumentam a pressão para manter o interesse da audiência. “Tenho sempre aquela pressão em cima de mim de entregar sempre mais e melhor”, admite.
A relação entre marcas e criadores de conteúdos também mudou. Na experiência de Raquel, as empresas passaram a dar mais atenção ao alcance das publicações e à identificação entre o criador, o projeto e a marca, em vez de olharem apenas para o número de seguidores. Os briefings tornaram-se igualmente mais detalhados, com orientações específicas sobre as mensagens a transmitir. O trabalho começa pela leitura dessas indicações e pela compreensão do posicionamento e do tom de comunicação da marca.
Depois, Raquel prepara um guião com os principais elementos da mensagem e os chamados hooks, ou seja, os recursos usados para captar a atenção nos primeiros segundos do vídeo. Envia a proposta à marca, introduz eventuais alterações, grava, edita e volta a submeter o conteúdo para aprovação antes da publicação.
Apesar das exigências comerciais, procura preservar a sua maneira de comunicar. “Eu tento sempre ser eu mesma”, explica. Mesmo quando uma marca pretende que determinadas mensagens sejam transmitidas de forma muito específica, procura integrá-las no seu discurso habitual.
“Tento sempre dar um bocadinho a volta e falar da minha maneira, para ser o mais natural possível”, acrescenta. Esta preocupação está ligada à identidade que construiu junto do público. Quem visita a sua página espera encontrar produtos e novidades apresentados de forma próxima e espontânea. Manter essa relação implica encontrar um equilíbrio entre os objetivos das marcas e as expectativas de quem acompanha os seus conteúdos.
O trabalho de Raquel Torres não se limita aos vídeos publicados na sua própria página. Entre os serviços que desenvolve estão igualmente a produção de conteúdos UGC (User Generated Content) e a atividade de Mobile Videomaker e Story Maker.
No UGC, os conteúdos são produzidos para serem utilizados pelas próprias marcas, sem que o criador tenha necessariamente de os publicar na sua página ou de dispor de uma audiência numerosa. Podem ser utilizados nas redes sociais, em anúncios ou noutros canais de comunicação, de acordo com os objetivos e as condições acordadas.
A principal diferença em relação ao trabalho de um influenciador está, neste caso, no destino do conteúdo: enquanto o influenciador publica na sua própria página para chegar à comunidade que o acompanha, o criador de UGC produz material para utilização pela marca.
Já o Mobile Videomaker privilegia a produção de fotografias e vídeos com o telemóvel, sobretudo para formatos como Reels e TikTok. É uma solução particularmente útil para empresas que precisam de conteúdos rápidos, incluindo a cobertura de eventos e a divulgação de momentos em tempo real.
Na vertente de Story Maker, Raquel acompanha eventos através da produção e publicação de fotografias, vídeos e histórias nas redes sociais. O trabalho pode incluir ainda um resumo do evento, normalmente entregue nas 24 a 48 horas seguintes. A rapidez é uma das principais características deste serviço, mas não significa que substitua a produção audiovisual tradicional. Para Raquel, os dois formatos respondem a necessidades diferentes. “Um não anula o outro e acho que são um grande complemento”, defende.
Raquel já trabalhava na gestão de redes sociais para clientes há cerca de três a quatro anos, em paralelo com a criação de conteúdos para a sua página pessoal. Com o crescimento dos vídeos de descoberta de produtos, porém, a sua presença digital começou a estar cada vez mais associada a essa vertente. “Eu deixei de mostrar tanto a parte da gestão de redes sociais. Apesar de ter muitos clientes, não mostrava o meu trabalho profissional”, explica.
A criação da WOWMY Agency surgiu da vontade de distinguir as duas áreas. A página pessoal continuaria centrada nos conteúdos dirigidos à sua comunidade, enquanto a agência passaria a apresentar o trabalho desenvolvido para empresas e a captar novos clientes.
O nome reflete a reação que Raquel gostaria de provocar com os seus projetos. Inspirada na expressão “Oh my God” e na ideia de surpresa associada a algo extraordinário, procurou uma designação que transmitisse o impacto que deseja alcançar com o seu trabalho.
“Era isso que eu queria transmitir com o meu trabalho, agarrar nas marcas e fazer com que elas fossem wow”, conta. A criadora considera que a experiência prática nas redes sociais representa uma mais-valia para a agência. Por produzir conteúdos para a sua própria página e trabalhar com marcas, conhece de perto os desafios de captar a atenção do público e transformar uma mensagem num conteúdo eficaz.
“Eu sei exatamente o que é que as marcas querem porque eu estou lá dentro, ou seja, eu crio conteúdo também”, afirma. Essa experiência permite-lhe articular a criação de conteúdos com o planeamento de marketing, tendo em conta não apenas aquilo que a empresa pretende comunicar, mas também a forma como a mensagem pode chegar às pessoas certas.
A agência conta também com uma equipa que acompanha Raquel Torres nos diferentes projetos. “Fui construindo uma equipa que hoje me acompanha nos diferentes projetos da WOWMY”, disse. Essa mesma equipa, segundo a própria, integra uma designer, um fotógrafo e uma profissional responsável pela estratégia e pelo planeamento de conteúdos.
Esta estrutura permite reunir competências complementares e alargar o acompanhamento prestado às marcas, desde a definição da estratégia até à criação dos materiais de comunicação. A colaboração entre diferentes profissionais ajuda ainda a responder às necessidades específicas de cada projeto, sem perder a proximidade com os clientes.
Na WOWMY Agency, o trabalho começa antes da primeira publicação. Raquel procura conhecer os objetivos do negócio, o público-alvo, a identidade visual, os valores e o tom de comunicação. Só depois dessa análise estrutura o planeamento de marketing, define os pilares de conteúdo, escolhe os formatos e organiza o calendário de publicações.
A intenção é evitar soluções padronizadas que não tenham em conta as características de cada empresa. “Não faz sentido para mim só publicar”, sublinha. “Tenho mesmo que estudar a marca a fundo.” Por esse motivo, não considera adequado trabalhar com pacotes iguais para todos os clientes. Prefere perceber as necessidades concretas de cada negócio e apresentar uma proposta ajustada aos objetivos definidos.
“Todas as marcas têm necessidades diferentes”, afirma. “Não existem para mim aqueles planos, aqueles pacotes, isso não existe, não faz sentido.” Entre os negócios que gostaria de acompanhar estão restaurantes, espaços de brunch, projetos ligados à gastronomia e às bebidas, alojamentos locais e outros espaços ou serviços com características diferenciadoras.
A prioridade passa por encontrar empresas que tenham algo próprio para mostrar ou que beneficiem de uma comunicação capaz de revelar melhor o seu potencial. Mais do que acumular clientes, procura construir relações profissionais duradouras. “Eu até prefiro poucos, mas bons. Eu prefiro pouca quantidade, mas muita qualidade”, resume.
A ligação à região também faz parte da vida profissional da própria criadora Raquel Torres. Vive no Barreiro, mas mantém uma relação próxima com o Montijo, onde residiu anteriormente e onde tem família e clientes. Conhecer estes territórios ajuda-a a compreender os públicos com quem trabalha e as necessidades dos negócios locais.
Dessa forma, ela pretende chegar a mais empresas do distrito de Setúbal e até de Lisboa. Já desenvolveu trabalho com clientes de Setúbal e considera que os negócios da região estão cada vez mais conscientes da importância da comunicação digital. “Cada vez mais têm mais essa consciência do que precisam e isso é muito importante”, afirma, referindo-se à necessidade das empresas investirem nas redes sociais para atrair clientes e aumentar as vendas.
A ligação à criação de conteúdos estende-se também à vida pessoal. Raquel ajuda o namorado na produção de conteúdos e no planeamento de marketing da SED SneakerED, uma loja de sneakers em Lisboa. Esta colaboração permite-lhe aplicar os seus conhecimentos de comunicação digital a um negócio concreto, com necessidades e públicos próprios.
Quando fala dos lugares da região aos quais gosta de regressar, destaca a Serra da Arrábida e a zona junto às praias, que considera propícias a momentos de descanso. No Montijo, refere ainda o Mercado do Cais, para o qual cria conteúdos, e a zona ribeirinha, que considera um espaço interessante para conhecer.
Apesar dos vídeos para as redes sociais poderem parecer simples a quem os vê, Raquel Torres considera que o trabalho de criação de conteúdos nem sempre é devidamente valorizado. Antes de começar a gravar, é necessário pensar na mensagem, no público, na imagem e na forma de apresentar um produto ou serviço. “Eu gostava que as pessoas valorizassem mais porque não é só carregar num botão e pôr a gravar”, afirma.
O processo envolve decisões sobre enquadramento, som, edição e estratégia. A formação em Audiovisual e Multimédia deu-lhe bases técnicas que continua a aplicar, mas a experiência também lhe ensinou a importância da consistência e da capacidade de adaptação. Para quem está a terminar um curso na área e quer seguir uma carreira na criação de conteúdos digitais, deixa um conselho direto: “Nunca desistam. Quando começarem, continuem. Tem que haver muita consistência.”
Raquel considera que os conhecimentos audiovisuais são uma vantagem, desde a escolha dos planos ao posicionamento da câmara e do microfone, passando pela edição. A técnica, contudo, deve acompanhar a personalidade de quem cria. O reconhecimento do público e das marcas é uma das conquistas de que mais se orgulha. “Ser reconhecida, de mostrar o meu trabalho e das pessoas realmente gostarem e de outras marcas me reconhecerem…eu fico mesmo muito contente”, confessa.
Para o futuro, quer trabalhar com mais empresas e continuar a desenvolver o projeto. Nesse percurso, destaca o apoio do namorado e da família, que acreditaram nela desde o início. “É o meu namorado e a minha família que estão sempre ao meu lado, que sempre me apoiaram desde o início e que sempre acreditaram em mim”, conta.
No final, quando questionada sobre aquilo que os seus vídeos revelam de si própria, a própria Raquel escolhe três palavras que resumem a forma como quer ser reconhecida: “Genuína, alegre e criativa”, conclui.
Uma palavra que define a criação de conteúdos? Criatividade.
Uma rede social de que não prescindes? Instagram.
Um conteúdo que gostasses de ter criado? Nunca fiz uma receita.
Uma marca com a qual a profissional Raquel Torres gostaria de trabalhar? Mercadona, sem dúvida.
Criar conteúdos ou pensar na estratégia? Criar conteúdos.
Barreiro ou Montijo? Ambos são importantes, mas escolho o Montijo.
Um lugar do distrito de Setúbal onde gostas de voltar? Tróia.
Um sonho profissional que ainda gostarias de concretizar? Viajar em trabalho com uma marca.
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