O fim do Sora expõe o excesso de conteúdo e o vazio de valor na era da IA – InfoMoney

O fim do Sora expõe o excesso de conteúdo e o vazio de valor na era da IA – InfoMoney

Eduardo Mendes

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O “Hollywood Horror Show” de hoje é um reflexo de um cenário moldado pela Inteligência Artificial, com desenvolvimento de alta tecnologia e crescente aceitação do consumidor. Como Doug Shapiro apontou há pouco mais de um ano, o valor para produzir vídeos está rapidamente convergindo com o custo de computação.
Em um futuro próximo, o preço abaixo da linha (sem contar os talentos) de um filme de qualidade de sucesso cairá drasticamente de US$ 1-2 milhões por minuto para apenas US$ 10-20 por minuto. Isso cria um suprimento quase infinito de conteúdo de alto valor e baixa produção.
As reflexões de Shapiro se tornam ainda mais relevantes diante do recente colapso do Sora da OpenAI. O projeto, que prometia revolucionar a criação de vídeos com IA, não conseguiu superar a barreira econômica e foi encerrado na última semana.
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A Disney rescindiu um contrato de US$ 1 bilhão e, embora o aplicativo tenha sido lançado com grandes expectativas, ele encerrou sua trajetória sem que seus 200 personagens licenciados tenham sido sequer usados pelos consumidores.
Em um longo ensaio publicado em fevereiro do ano passado, Shapiro escreveu que os últimos 10-15 anos de vídeo foram dominados pela disrupção na distribuição de conteúdo. Contudo, ele sugeriu que os próximos dez anos seriam definidos pela interrupção na criação de conteúdo.
O fracasso do Sora expõe um problema mais complexo: a promessa de democratização do conteúdo esbarra na economia do UGC e no risco de um modelo de negócios que ainda não se provou.
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A decisão da OpenAI escancara um ponto que Ben Woods tem insistido: o valor na cadeia da criação de conteúdo ainda não foi estabelecido, especialmente quando se fala em licenciamento de propriedade intelectual (IP) e conteúdo gerado por fãs.
O analista argumenta que o valor do UGC continua subexplorado nos modelos de monetização tradicionais. Para ele, a verdadeira transformação da creator economy não virá da automatização pura da criação, mas da integração inteligente entre UGC e IP licenciado. Ele alerta que, sem essa combinação, o valor do conteúdo gerado por usuários será dificilmente alcançado de maneira sustentável.
A monetização do IP não pode ser vista apenas como uma questão de acesso a grandes audiências ou volume de conteúdo. O modelo de negócios sustentável, como apontado por Woods, passa pela participação dos criadores no valor gerado, com licenciamento inteligente e co-propriedade de IP, o que daria aos criadores uma fatia maior da receita gerada pelo seu trabalho, ao invés de ser apenas uma distribuição unilateral.
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“Minha conclusão é que foi principalmente uma decisão de custo, e a plataforma e a base de usuários nunca foram desenvolvidas de forma séria. Então ainda temos que esperar para ver sobre IA e criação de fãs”, defende.
O ponto econômico destacado por Woods é reforçado pelos dados revelados pela Forbes. No auge de seu funcionamento, o Sora custava à OpenAI cerca de US$ 15 milhões por dia, o que representava aproximadamente US$ 1,30 por vídeo gerado.
No entanto, a receita proveniente de compras dentro do aplicativo foi de apenas US$ 2 milhões. Esse valor mal cobria três horas de operação, como bem destacou o ProfgMedia
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Um exemplo prático dado pelo Entertainment Strategy Guy é o comercial de Natal da Coca-Cola, produzido com IA. As manchetes indicavam que foram necessárias 100 pessoas para gerar 70 mil clipes. A um custo de US$ 5 por clipe, isso resulta em um total de US$ 350 mil para o comercial.
Embora o valor real não tenha sido divulgado, o case indica que a produção em escala com IA ainda é cara, e grande parte das despesas são subsidiados pelas empresas de tecnologia que tentam conquistar mercado antes de aumentarem os preços.
Comparando com outros projetos de grande escala, como o Horizon Worlds, metaverso do Facebook, que teve um pico de 300 mil usuários ativos mensais, e o MySpace, que tem menos de 800 mil visitantes mensais hoje, o Sora estava longe de atingir a escalabilidade necessária para ser considerada um modelo viável.
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Como escreveu o ProfgMedia, não havia a mínima possibilidade de um investimento paralelo tão desastroso continuar.
Se a conta não fechava do ponto de vista de custo, ela também não se sustentava do lado da demanda.
De acordo com dados de Olivia Moore, da Andreessen Horowitz, a retenção de usuários do Sora no primeiro dia foi de 10%. No sétimo dia, caiu para 2%. No trigésimo, 1%. No sexagésimo, próximo de zero.
A analista Jen Topping resgata a “regra de 1%” para contextualizar: cerca de 1% dos usuários criam conteúdo, 9% participam e 90% apenas consomem. Na prática, a concentração é ainda maior. Como exemplo, Topping cita o Instagram com seus 2 bilhões de usuários, porém lembra que dificilmente dez milhões (ou 0,5%) podem ser considerados criadores relevantes.
A aposta implícita da Sora era inverter essa lógica. Tornar a criação acessível o suficiente para transformar consumidores em criadores. E, a partir disso, gerar uma nova camada de conteúdo capaz de sustentar o engajamento.
Não funcionou.
Quando o efeito novidade desapareceu (tanto para quem cria quanto para quem assiste) o comportamento voltou ao padrão original. A tecnologia reduziu o custo de produzir, e não criou motivo para isso.
Esse ponto fica ainda mais evidente quando ampliamos o olhar para o consumo. Como destacou o ProfgMedia, a regra de 1% pode mostrar os buracos apenas da superfície.
A distribuição real de atenção é ainda mais concentrada. Veja os números compartilhados pelo especialista: 4% dos vídeos do YouTube respondem por 94% das visualizações 3% no Instagram concentram 84% 5% no TikTok geram 89% E os 25 maiores podcasts capturam quase metade da audiência semanal nos EUA
Os vídeos gerados pela máquina que viralizaram nas redes geraram a percepção de ruptura. No fim, as pessoas querem criar ou apenas consumir melhor? O ProfgMedia defende que os consumidores não desejam produzir seu próprio entretenimento: “Eles almejam ser entretidos.”
E, por enquanto, a resposta está na retenção.

Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.

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