Enquanto parte do mercado de marketing testa avatares, influenciadores virtuais e vídeos inteiramente produzidos por inteligência artificial, outro movimento começa a ganhar espaço: usar a tecnologia não para substituir quem aparece diante das câmeras, mas para automatizar tudo o que acontece antes e depois da gravação.
A mudança ocorre em um momento de pressão sobre as equipes de marketing. Redes como Instagram e TikTok elevaram a demanda por vídeos em diferentes formatos, abordagens e versões, tornando a produção de conteúdo uma operação cada vez mais contínua.
Nesse cenário, o desafio para muitas marcas deixou de ser apenas encontrar um influenciador com audiência. Passou a ser produzir conteúdo em volume, testar diferentes criativos e reduzir o tempo gasto entre briefing, escolha do creator, aprovação e entrega.
É nesse gargalo que a Noovid, marketplace que conecta marcas a criadores de conteúdo, pretende avançar com o lançamento do Noovid Pro, nova camada de assinatura da plataforma.
A empresa reúne atualmente mais de 8 mil criadores e 5 mil marcas cadastradas.
O avanço acontece junto com a popularização do UGC, sigla em inglês para user-generated content, ou conteúdo gerado por usuários.
Na publicidade digital, o conceito também passou a ser usado para vídeos produzidos por criadores contratados pelas marcas, normalmente com uma estética mais próxima do conteúdo que circula organicamente nas redes sociais.
Em vez de grandes produções publicitárias, são demonstrações de produtos, depoimentos, tutoriais e vídeos gravados com linguagem semelhante à utilizada pelos próprios consumidores.
Essa mudança também alterou a lógica da creator economy. Para parte das empresas, especialmente e-commerces, startups e anunciantes que dependem de mídia paga, o número de seguidores do criador pode ser menos relevante do que sua capacidade de produzir peças que possam ser testadas em campanhas.
O desafio passa a ser operacional: encontrar os perfis adequados, enviar orientações, acompanhar prazos, revisar materiais e repetir esse processo em escala.
A estratégia da Noovid parte justamente dessa divisão. Enquanto ferramentas generativas tornam possível criar apresentadores e personagens digitais, a empresa decidiu aplicar inteligência artificial principalmente sobre os processos que cercam a produção.
O Noovid Pro incorpora uma ferramenta de IA que recebe informações sobre produto, posicionamento, público e argumentos comerciais de uma marca para estruturar briefings e roteiros voltados à produção de UGC.
A tecnologia também participa da seleção dos criadores e da organização da campanha.
“Boa parte do mercado está tentando substituir o criador por um avatar. A gente fez o contrário. A IA cuida da parte repetitiva. Quem aparece no vídeo é uma pessoa de verdade, porque é isso que converte”, afirma Jade Perle Louis, cofundadora da Noovid.
A tese da empresa é que atividades repetitivas e administrativas podem ser absorvidas pela tecnologia sem necessariamente retirar o componente humano do conteúdo.
Outro componente da assinatura é o Noovid Hub, ambiente fechado que reúne criadores selecionados a partir da base da empresa.
O acesso ocorre por convite. A partir do Hub, marcas conseguem convidar diretamente os criadores para uma campanha. Na modalidade prioritária, a proposta é que o conteúdo seja entregue em até 48 horas.
A tentativa é reduzir uma etapa que ainda consome tempo de equipes e agências: pesquisar individualmente dezenas ou centenas de perfis antes de iniciar uma produção.
“A gente acabou de resolver o maior problema do creator marketing. Nenhuma marca deveria perder horas garimpando perfil atrás de perfil. O Hub já reuniu os criadores de melhor desempenho da plataforma. O tempo da marca vai para lançar campanha, não para procurar criador”, complementa.
A seleção prévia também aponta para uma tendência de amadurecimento desse mercado. Conforme cresce o volume de criadores disponíveis, plataformas passam a buscar mecanismos para organizar a oferta por desempenho e adequação a diferentes campanhas.
Uma das mudanças mais relevantes da nova oferta está na forma como o usuário interage com a plataforma. Integrações permitem comandar etapas da operação por meio de assistentes de inteligência artificial como ChatGPT e Claude.
Na prática, um profissional de marketing pode informar ao assistente que precisa produzir dez vídeos para determinada campanha. A partir desse comando, a integração pode estruturar o briefing, selecionar possíveis criadores, criar a campanha e iniciar os convites.
Também é possível acompanhar entregas e aprovar materiais sem necessariamente começar o processo dentro do painel tradicional da plataforma.
O movimento acompanha uma transformação mais ampla do mercado de software. Com agentes e assistentes capazes de executar tarefas em sistemas externos, parte das ferramentas corporativas começa a deixar de depender exclusivamente de menus, formulários e dashboards. O comando em linguagem natural passa a funcionar como uma nova camada de interface.
Para empresas de software, isso significa uma mudança importante: o usuário não precisa necessariamente entrar em uma plataforma para utilizar suas funções.
A Noovid já possui integrações com Meta e TikTok e trabalha para aprofundar a conexão com essas plataformas, ampliando o acesso a métricas e permitindo que anunciantes utilizem o conteúdo produzido pelos criadores em campanhas de mídia.
A empresa também prepara sua expansão para outros mercados. Mais do que o lançamento de uma assinatura, o movimento mostra como a inteligência artificial começa a avançar sobre tarefas operacionais dentro do marketing.
Depois de ferramentas capazes de produzir textos, imagens e vídeos, a próxima disputa envolve sistemas capazes de coordenar fluxos inteiros de trabalho.
No creator marketing, isso significa conectar o planejamento de uma campanha à contratação, produção, aprovação e distribuição do conteúdo.
A diferença está em definir até onde vai a automação. Enquanto uma parte do setor tenta utilizar IA também para gerar os personagens que aparecem nos conteúdos, a Noovid aposta que pessoas reais continuarão ocupando esse espaço.
“O criador de conteúdo não vai ser substituído pela inteligência artificial. Ele vai ser contratado por ela”, afirma Jade.
Se essa lógica ganhar escala, a transformação mais relevante provocada pela IA na creator economy pode acontecer menos diante das câmeras e mais nos bastidores: reduzindo o trabalho necessário para colocar milhares de novos vídeos em circulação.